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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Não vou mais a psicóloga

Não estou fazendo terapia nas últimas semanas, a psicóloga está em licença maternidade e vai demorar mais algumas semanas para retornar às atividades. Tenho pensado comigo, pretendo encerrar as sessões. Ultimamente não sinto que as coisas ditas na terapia estejam ajudando a melhorar em algo. Aliás, parece que tudo está velho. Vou a uma sessão e vou trazer essa questão para a terapeuta e talvez ela me convença a continuar com aquilo que certamente é um dos divisores de água na minha vida. Minha adolescência foi conturba no sentido d’eu não compreender realmente quem eu sou, o quê pretendo fazer da vida, o quê me faz feliz, entre outras coisas que acho que sáo normais a todos adolescentes passarem. Nessa questão a terapia ajudou de forma imensurável.

Já falei aqui que trabalhei durante a minha adolescência em um programa que emprega adolescentes durante meio período em órgãos do Governo Estadual. Durante esse programa conheci várias pessoas, entre elas um cara que trabalhava em um dos departamentos do órgão no qual eu fui lotado. Esse cara é simplesmente um deus grego, grande, lindo, voz de trovão, heterossexual pegador com cara de bad boy.

Eu já trabalhava alguns meses no lugar, mas foi depois que percebi que na presença desse cara eu ficava tímido e ao mesmo tempo feliz. Conversar com ele me deixa ao mesmo tempo recompensado e irritado, porque minhas pernas tremiam contra a minha vontade. Logo eu estava tocando punheta pensando naquele cara. O irônico que ainda assim eu me achava heterossexual e quando na presença dele fazia saliência com as outras jovens do programa de emprego para ele pensar que eu era um pegador. Eu nunca fui pegador e para ser bem sincero, tenho nojo de beijar mulher na boca. Mas que fique bem claro, é só beijo na boca e coisas mais íntimas. Um selinho é super aceitável.

Eu não era tão tapado assim, percebi que eu queria ser heterossexual, mas na verdade eu era homossexual, porque heterossexual algum bate punheta pensando num cara lindo igual aquele, nem mesmo feio. Bem, nesse período da minha vida, por volta dos 17 anos, eu vivia um momento de fervor religioso e era daqueles que acreditava que homossexualidade, na verdade homossexualismo, era contra a vontade de Deus, punido com o fogo do inferno, mas que nós, até então cristãos, tínhamos a arrogante humildade de tolerar, contanto que a pessoa não fosse mesmo homossexual. As conseqüências disso na minha vida foram o fato d’eu não me aceitar como homossexual, sentir culpa por me sentir atraído por aquele cara e achar que eu não gostava dele e ele fosse recíproco nessa questão.

O que aconteceu então foi o seguinte. Passei a dar maior relevância aos momentos em que sutis atritos ocorriam entre mim e o sujeito, uma vez que ele trabalhava no protocolo, lidando com números de processos, e eu criava listas enormes, com dezenas de números de processos para serem arquivados por ele no sistema de gerenciamento. Nada tão relevante assim. O que acontecia é que apesar do meu esforço eu errava um, dois, três, quatro ou cinco ou seis números de processos e ele... ficava putaiado com aquilo. Além do mais o cara possuía um bom relacionamento com todos jovens do programa, mas comigo não, porque eu simplesmente sou tímido, raramente tomo a iniciativa e naquele caso não dava abertura.

Aí é que entra a terapia. Eu me sentia incomodado com o relacionamento com o cara do protocolo, ou seja, eu não ia em vão para terapia. Porém eu não ia às sessões para falar que eu era gay, embora não fosse minha escolha, e que estava apaixonado por um heterossexual que sequer dava a mínima para mim como colega de trabalho. Eu estava incomodado e mentia para mim e achava que mentia para a psicóloga que o que me incomodava no cara era seu comportamento anti-ético, o que não era, no trabalho e seu sádico assédio moral. Coisa fofa né? Eu, um menino de 17 anos que deveria estar estudando para o vestibular, mas que por outro lado não precisava pedir dinheiro aos pais para ir ao shopping com os amigos, estava sofrendo assédio moral no trabalho e a terapeuta estava me ajudando a enfrentar aquilo?

Ok! A terapeuta estava ajudando mesmo, mas não da maneira que eu esperava que tivesse. Ela ia somando tudo aquilo e depois de forma eufemística me chegava à parede e dizia, eu sei que você é um homossexual que não está entendendo nada, que está com medo e que está pedindo, a sua maneira, ajuda. Tá, talvez ela não pensasse bem assim, mas que chegar a uma revelação da minha parte ela queria, ah ela queria. Ele fez isso umas quatro vezes e eu negava. A terapeuta fazia aquela cara de “Aham Cláudia, senta lá” durante minutos e eu ficava como uma cara de estrela do PT, vermelha. Eu, não com os erros de pronuncia de Luan Santana, dizia a ela que eu sou homem e gosto de mulher. Na verdade eu fingia que gostava de mulher porque pensava fazendo aquilo, no meu inconsciente, iria ganhar um beijo no cangote daquele macho gostoso.

A terapia não fez nada sozinha, outras coisas também foram acontecendo, o novo jeito de se fundamentar a verdade que descobri na Universidade, as frases de efeito que eu ouvia por parte dos militantes do Colcha de Retalhos, a minha própria angústia e vontade de me aliviar, enfim,várias coisas foram colaborando para o meu processo de auto entendimento e aceitação. Porém, a terapia deve ter ajudado em uns 40% o processo.

Conforme eu também já falei aqui, um dia viajando para São Paulo de carro com meus pais, eu na solidão e no silêncio do banco detrás, enquanto admirava a paisagem da BR 050, assumi mentalmente para mim que era homossexual, que o caminho era esse, as conseqüências disso eu pensaria depois e que eu estava desistindo da heterossexualidade. Fui à terapia e finalmente contei à psicóloga? Não! Entrei em comunidade no Orkut usando perfil fake, falei da minha vida para pessoas na mesma condição, elas falaram da delas para mim, não me senti de todo só e nesse período fui colocado por ela na parede e menti mais uma vez.

Fazendo ao redor de 18 meses de terapia e eu já maior de idade estou falando uma trivialidade qualquer da vida durante a sessão quando na verdade queria liberar o glitter. Lá pela metade do meu horário naquela manhã quente de quinta-feira, eu interrompo a mulher no meio de sua esplanação sobre algo naquele momento irrelevante para mim e digo algo mais ou menos assim:

“Olha, na verdade eu estou aqui hoje não para falar disso, eu quero falar de outra coisa. Você já sabe, já sabe desde o começo, eu venho mentindo, minhas mãos estão geladas, meu pés também [o Well sente o coração disparando e os ossos da almofada em seu colo quebrando, kkk], enfim, eu estou falando mais do que quero, é, eu sou gay!”

Bem, o que aconteceu depois disso, bem, naquele dia, ela falou que já sabia, que estava esperando por aquilo, estava esperando o meu tempo, mas não que eu viesse daquela maneira tão “interrompente” e disparada, o que foi de certa maneira engraçada. A terapia durante muitos meses foi o tempo de falar “Caraca, eu sofrendo desse tanto só por causa de uma bostinha simples dessa?”. Tudo que a terapeuta falava fazia sentido da mesma maneira que todos nomes que Adão, quando sozinho no paraíso, dava as coisas pegavam. Assim como Deus eu vi que aquilo, a terapia, era bom e disse que assim seja.

Apesar de ser a terapia um divisor de água, penso em encerrar as sessões, pelo menos por enquanto, dar um tempo, aprender mais, sofrer mais, para voltar ali ou em outro lugar. As sessões, a exemplo de toda minha vida, viraram um tédio e ali não tem nada que me prenda atenção. Sinto que eu já aprendi o suficiente até o momento, o que eu preciso agora é colocar em prática e esperar os burros darem na água para voltar ali ou em outro lugar. Eu sei que depende de mim dar mais graça à minha vida, encontrar novos amigos, terminar meu curso, encontrar um emprego que me satisfaça, virar o doce de filho que minha merece que eu seja e no entanto não sou. A noção que tenho é que ir agora as sessões será apenas bater na mesma tecla quando o quê eu preciso mesmo é de uma impressão a laser. KKK Adoro metáforas!

domingo, 22 de agosto de 2010

Respondendo às perguntas

A semana começou e foi passando, o que é normal até provarem o contrário. Quarta-feira à noite foi dia da aula de estágio e a primeira e única vez na semana em que veria o colega presbiteriano. Ele chegou atrasado, cumprimentou a todos nós com o olhar. Os orientadores se entreteram com uma discussão sobre as atividades e o colega me aponta um papel no chão. Pego o papel e começo a abrí-lo, ele diz que não e pede que eu leve o papel até ele. Entrego e ele me pede para esperar. Já deduzi o que ele iria perguntar, abre o papel e no verso escreve:

"Que parada é essa de amigo colorido?"

Eu eu respondo, "Ah, você sabe!". Ele me olha com cara de dúvida e eu emendo "É isso mesmo, o que isso significa para você?" e ele me cortando pergunta, "Você é?" e eu digo que sim. Ele responde falando que já sabia e eu de certa maneira penso que a minha intenção realmente foi essa.

Ao final da aula vamos embora, claro, e indo para o estacionamento andamos na frente dos outros amigos para que ele me faça perguntas do tipo, você já experimentou, há quanto tempo saiu do armário, seus pais sabem, como foi e tudo mais. Respondia de forma sucinta e finalmente vem ele tocar no assunto da religião, diz que o ato homossexual para ele é uma aberração, mas não condena os homossexuais e tudo mais, o que para ele é erro de grande parte do crentes.

Bem, o que ele falou sobre religião não assustou nenhum pouco, sem querer justificar respondi a ele que existem controvérsias em relação as interpretações bíblicas e que novas denominações tem surgido levando em conta isso. O colega disse algo que para mim é bem verdade, esses ministérios estão errados. Bem, para ele o erro está no fato delas existirem para acolher os homossexuais, para mim está nela usarem como premissa todas escrituras que condenam aos homossexuais.

Legal nisso tudo é que é notar meu preconceito para com aqueles que não sabem, ou tem certezas, sobre minha sexualidade. Também é legal notar como em quatro anos eu evoluí, pois quando entrei para Universidade eu sequer imaginei que em tão pouco tempo as pessoas mais próximas de mim saberiam e hoje sabem. Sem contar que nunca imaginei que tão rápido falar sobre minha sexualidade a alguém fosse uma questão desse alguém perguntar. O que dirá do meu preconceito ao esperar uma reação hostil do colega só por ele ser religioso.

sábado, 27 de março de 2010

Sobre o Poder

Eu pensei que eu me importava com alguém que provavelmente não lerá mais esse texto, e nem os próximos, inúteis e clichês como os anteriores, que eu escrever. Na verdade esse texto é uma preocupação comigo mesmo, é a manifestação da minha frustração e a forma como eu entendo tudo o que pude observar.

O que tiro de tudo o que vi é que a vida é sempre uma disputa de poder onde o medo e a ignorância e as ações que eles levam a nós fazermos, nada mais é do que o poder entrando em prática. Isso explica tudo, do surgimento ao desparecimento tão rápido aqui na web, até a auto segregação em relação a muitos, como eu, que a web levou a conhecer.

Se não estiver enganado (saber que Paulo Braccini, filosofo, vai ler isso aqui me deixa inseguro) Hegel disse, mais ou menos, que o poder do opressor reside na consciência do oprimido. E não que tenha alguém que seja uma pobre coitada por isso, mas existe uma oprimida conferindo aos opressores, sem entender quem sabe, o poder.

De qualquer maneira não posso julgar mal. Esse poder do opressor, na verdade dos opressores, está bem manifesto, inclusive de forma sutil. Vai desde a religião que alguém frequenta, das instituições sociais, dos humorísticos programas toscos e suas formas caricatas de representar a homossexualidade, até à mentalidade dos familiares, aos comentários desde já preconceituosos dos amigos e pessoas mais quistas, aos tão falados formadores de opinião.

Bem, existem os opressores, e têm entre eles aqueles que se tornam opressores sem saber que são opressores, simplesmente porque eles também têm medo e ignorância. Os familiares, amigos e afins, são exemplos disso.

E lá o Foucault, o Raffestin, diriam que tudo é uma disputa de poder e é mesmo. Esse blog aqui, o do Paulo, do Gato, do Wans, das moças do Nem Froid Explica, todos blogs relacionados aqui ao lado participam de várias disputas de poder, exceto um porque não existe mais e tomara seu dono não colocar uma corda no pescoço para também não existir mais, materialmente como preferir.

A maioria desses blogs aqui são sobre sexualidade, a sexualidade de seus escritores, e estão disputando para ver quem ganha, se a heteronormatividade ou a livre escolha das pessoas de serem o que elas sentem que são. Mesmo que seus donos não façam como eu algumas vezes faço, uma crítica contra alguém, contra alguma instituição ou algum comportamento. Quando eles estão falando de suas rotinas, de seus gostos enfins, estão disputando o poder.

Entendido que todos que gostamos, que lemos, que acreditamos, que simplesmente existem, agem e pensam, estão fazendo inúmeras disputas de poder, resta dizer que o que vi alguém fazendo é nada mais que uma disputa de poder onde eu creio que ela, que pensei estar ganhando tanto, perdeu, mas não só ela, eu também e muitos também.

Sinto derrotado porque nos assemelhamos, se alguém vence algo relativo a aquilo que nos assemelha, a vitória é indiretamente nossa, porque a demanda também é nossa. Consolidar alguém uma demanda igual a minha, é também consolidar a minha.

E tudo o que falou, nada do que foi dito é para mim estranho. Preferia eu que não fosse assim e torço para que ninguém enlouqueça, nem se mate, eu é que não vou. Mas acho que vai dar certo, dizem e eu acredito que o mundo não é mais como era antigamente. Uma hora as pessoas começam a rever a tudo, inclusive o conceito das mais banais das palavras que usam para pensar. Também resta torcer para que sejas feliz e se eu pudesse dar um conselho é o de pensar nos outros também, porque uma hora alguém vai pensar em si próprio, o que deveria ter feito desde o começo, e acabar prejudicando quem seja, quem sabe, inocente.

Bem que eu poderia colocar aqui uma música do Cartola, mas seria piegas e seria uma liçãozinha de moral que estaria fazendo ao autodenominar-me dono da verdade, o que não é minha intenção. Mas assistim A Vila, aquilo lá que mostra o poder.

P.S.: Acho que esse é pelo menos um dos melhores textos que já escrevi aqui, mesmo que confuso.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Sobre a libras

Falar para eu mesmo que sou gay foi complicado porque gay não significava apenas quem gostasse de pessoas do mesmo sexo. Embora fosse repetido e eu tentasse acreditar, ainda tinha comigo a imagem de que gay é mais do que é isso, aliás, é menos do que os outros, que gay é inferior.

E sabido, pelos padrões sociais que são empurrados, que temos que ser perfeitos, dentro daquilo que é colocado pelas instituições, pela publicidade, que diga-se de passagem é uma coisa que faz mal e está serviço dele, e pelo consumo como perfeito. Na construção do impõe como pessoas perfeitas, coisa que tento alcançar as vezes sem me dar conta, não entra o homossexual, apesar que tenham aí um discurso dissonante, mas ainda sim mínimo querendo mudar isso.

Pronto, agora assumi para mim que sou gay, mas acabei admitindo para mim também que sou inferior no fundo também. Na verdade não assumi que sou gay, admiti que sou bissexual, porque é menos pior, apesar que de mulher mesmo nunca tivesse eu gostado e nunca fui bissexual, também decidi que não faria amizades com pessoas do “meio”, não deixaria ninguém saber disso e por aí vai. Conforme vou incorporando que não é inferior, vou evoluíndo, conto para terapeuta, que já sabia é claro, para amigos, pais, e alguns lugares públicos pouco me importa saber se os outros vão entender isso, que eu sou homossexual mesmo, na maior parte do tempo passivo.

Fazer Libras foi também uma realização pessoal na qual serviu também para eu fazer todas essas reflexões que coloco nesse texto. Não que eu não soubesse disso tudo que estou escrevendo aqui, é que eu não tinha sistematizado para mim mesmo do modo claro que até eu entendesse, o que faz com que eu conclua que o processo de auto-observação e auto-entendimento é delongado e contínuo.

Aos poucos fui me conhecendo e aos poucos fui perdendo o medo que tive de mim, porque passei aos poucos a me entender. Com surdos, com cegos, com pessoas com deficiência mental, cadeirantes e tudo mais é a mesma coisa, apesar que penso que auto-aceitação, pelo menos para aqueles com deficiência nativa, não tenha sido o caso.

Mas no fundo quando pensamos nessas pessoas, mesmo que queiramos ser inclusivos, somos preconceituosos, porque temos medo de magoá-las e não entendê-las como é o meu caso. Mas ainda bem que posso me dar ao luxo de ser racional usando dessas emoções que me vêm agora, revolta, vergonha, orgulho, satisfação, medo, inconformismo, porque assim posso me dar conta do quão limitado eu é que sou e como se aprende a cada a instante.

Não não não! As melhores lições não são essas que estão escritas em longas dissertações, teses, artigos, livros, palestras e tudo mais. As melhores lições são essas que se assemelham à Libras, as que de tão simples que são acabam se tornando complicadas serem percebidas, aprendidas como os seus sinais e gramática, que se assemelham à essa reflexão que fiz e que certamente não estava na ementa da disciplina.

Aliás, porque estou escrevendo isso? Pouco importa. Estou atrasado para o lançamento do livro da Vaca Profana.

domingo, 14 de março de 2010

Sobre o Gaydar

Por causa do lançamento do livro da Vaca Profana, ela veio até minha casa ontem deixar convites para a solenidade na qual vão estar outros escritores também lançando seus livros, a imprensa local, os políticos, os “formadores de opinião”, os garçons, os seguranças engravatados e as moças arianas super maquiadas da periferia. Conversávamos e navegávamos pelo orkut olhando as pessoas e contando causos sobre elas no melhor estilo recordar é viver.

Tinha ali o ex da Vaca Profana, que dizia amá-la muito, que não gostava de viado, que era emo por modinha e que o tio da Vaca, que é super divosa, chamou para fazer tudão. Tudão… palavra legal. O Di, o meu amigo casamenteiro cujo gaydar eu confio, viu a nosso pedido o perfil do ex da Vaca e deu o veredicto, que nos convenceu, o rapaz é do babadón. Sempre desconfiamos do garoto e ficamos num misto de eu já sabia, riso, de ele te enganou Vaca e tudo mais.

Bem, olhando ali o orkut do Di, olha só que eu vejo entre nossos amigos em comum, nada mais do que meu colega de estágio. Não que a pessoa seja delicada, efeminada, e tudo mais. Mas sabe quando você olha para alguém e vê que ela tem um semblante, uma aura, de colorido também? E o caso desse colega de estágio, que por sua vez tira sarro dos professores do instituto aparentemente gays, de toda figura colorida que vê, é evangélico e lógico, contra o “homossexualismo”.

O que achei estranho é o colega de estágio estar no orkut do Di, cujo fator que nos tornou amigos foi a nossa sexualidade. Mais estranho o colega ter outras pessoas do meu orkut, que são gays, adicionadas. Então pergunto ao Di de onde ele conhecia fulano. O Di respondeu que na Uol, mas que não fala muito com ele. E eu pergunto, e ele é gay, como se Uol já não fosse quase que uma redundância. Ele responde que sim, e para ficar bem respondido eu devolvo com outra pergunta, ele é ativo ou passivo. O Di responde que não sabe, mas que vai confirmar da próxima vez.

Bem, o Gato de Cheshire tem razão, um boi preto conhece o outro. Assim é melhor não subestimar mais toda sofisticação tecnológica do meu gaydar. É engraçado, na verdade não é engraçado e sim irritante, esses meninos enrústidos. Uma coisa é estar no armário, o que acho legítimo porque também já estive e sei bem os motivos que levam alguém a ter essa discrição. Mas já é de me deixar putaiado o cara ser e ainda fica repercutindo preconceitos contra os iguais como se não fosse um.

Lamentável mesmo é que o colega de estágio não seja gatinho. Se fosse da próxima vez que ele viesse aqui discutir o projeto de intervenção, eu iria parar do nada, olharia nos olhos dele bem profundamente e diria: “Eu sei de tudo. Tire a purpurina do potinho bee. Agora chega aqui e me beija, porque eu tenho camisinha”. Mas ele não é bonito porque ele é… feio.

Eita final de semana divertidoso.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre esse blog

Quando eu criei esse blog, em 2007, eu tinha 18 anos. Na época eu escrevia bem menos, e acho que pior, do que escrevo hoje. O que queria na blogosfera, e ainda com o título Sempre Avante no Nada Infinito, era falar da minha sexualidade ainda não tão resolvida como pode ser hoje.

Sempre soube que eu era homossexual e lá por volta dos 18 anos, numa viagem para o interior de São Paulo, no marasmo que trazia o banco traseiro do carro em uma rodovia entre Uberlândia e Uberaba, eu resolvi finalmente ser homossexual. Sei lá como, eu tinha mais dúvidas do que certezas.

Os 18 anos foram por assim dizer, o ano da mudança para mim. Agora de um dia para o outro eu sou adulto e em algumas semanas vou fazer o que sempre quis, dirigir. Agora eu me revolto com a obrigação de ter que me alistar ciae se definido fosse, servir ao Exército, o que me faz saber que eu sou dono do meu próprio nariz, mas não do meu único corpo. Além disso, entro na Universidade que é um mundo em que não só o cheiro do ar é diferente, por causa do laboratório de anatomia humana e da grama, mas também a forma de falar, explicar e acreditar no mundo. Agora eu decidi que não vou ser o que eu passei a minha vida toda querendo me tornar, heterossexual, porque eu nunca fui. Agora estou realmente incorporando e entendendo os que foi falado naqueles 18 meses de terapia.

Então criei, depois de uns dois meses, esse blog aqui. Tentei sintetizar tudo aquilo que estava acontecendo comigo. Quis falar de mim mesmo, da minha sexualidade, das minhas consciências ou o que hoje acho simplesmente ingenuidade minha naquela época e o que morro de medo de saber no futuro que o atual também possa ser. Certo era que eu queria acertar e colocar através das palavras o que eu estava sentindo e o que idealizo.

Creio que nunca tive sucesso com isso. Creio que nunca consegui porque o que eu escrevo é muito idealizado. Me perco muito escrevendo, abro muitos parênteses, sou repetitivo e acho que explico muito. Idealizo inclusive a forma como vocês vão ler e receber isso. Ou em outras palavras, me antecipo aos leitores.

Hoje dá mais prazer escrever porque sei que tem mais gente para ler e saber que sou lido. Isso satisfaz o desejo implícito de ser ouvido. Mas gosto do que escrevi no passado, do jeito errante, apesar de que me indago como pude escrever algumas coisas. Também fico contente por saber, que embora eu escreva o mesmo parágrafo inúmeras vezes, que embora eu demore uma hora para escrever coisas de se ler em três minutos, em mais linhas do que o necessário, eu sou idealista e tenho minhas utopias, se é que devo tratar o que pretendo alcançar como utopias.

Mas se bem que esse blog existe é por causa disso mesmo, ser ouvido. E ser ouvido não é só a consciência de saber que alguém vai ler e meia dúzia de gatos pingados, apesar que o Gato de Cheshire aparece pouco por aqui de tempos para cá, vá comentar, créditos ao Paulo Braccini por ser quem mais me prestigia com os seus comentários. Ser ouvido, e logo o que quero aqui, é ser saber que alguém entendeu o que quis dizer, que mesmo que não concorde comigo, o que eu tenho dito vai fazer pelo menos alguma diferença, mesmo que seja para dar mais convicção, a alguém que pense diferente de mim.

Então é por causa disso que escrevo e delongadamente contra a religião, contra Deus, contra o pastor Silas Malafaia, a favor dos direitos civis, a favor da Dilma e do PT e porque acho que homossexual não deve votar em partido de quem é contra PLC 122. E por isso que as vezes escrevo aqui, eu acho que nem eu entendi realmente o que eu falei. Sabe, é que eu sou ruim com ensaio. Da preguiça escrever o mesmo texto duas vezes.

Bem, vou continuar escrevendo aqui por causa de tudo isso que eu acredito, pelos mesmos motivos de quando escrevi no passado, embora agora tenha mais coisa diferente e eu saiba muito de quando comecei isso aqui. Algumas vezes escrevo com esses títulos parecidos, apenas parecidos, com texto de filosofia porque acho bonito se parecer Cult e filosofia é Cult.

É, não é cair em parafuso e nem crescimento em espiral. Em parafuso horizontal significa para mim, ir para algum lugar, que pelo visto nem eu sei o que é e onde fica.

P.S.: Agora sim eu fui metablogueiro.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Aqui começa 2010

Hoje é dia 08 de janeiro, data que certamente vou carregar por toda vida, pois ela adquire para mim um significado relevante. Ano passado, nesse mesmo dia, aproximadamente às quatro horas da tarde minha mãe chegava do trabalho, conferia a caixa de correio e depois vinha até o meu quarto para dizer essencialmente que não era para eu receber cartas de homens. O que havia chegado para mim naquela quinta-feira era uma carta do Mário, não a primeira dele para mim, muito menos a primeira oriunda de um homem.

Quando ouvi o imperativo da minha mãe logo me desconcentrei do filme que assistia aqui no PC, De Porta em Porta cujo enredo não me agradou, era bem neoliberal e meritocrático. Comecei a pensar por quanto tempo iria brigar com minha mãe, iria mentir a respeito da realidade para os meus pais para viver como o que eu realmente sou. Pensei no e se eu falasse agora. Me veio medo, veio receio, veio a adrenalina e veio uma insegura decisão que uma vez tomada eu não iria voltar atrás.

Minha mãe estava sentada na minha cama esperando algo, não sei bem o quê, talvez tivesse pressentido que eu iria falar algo muito sério a
ela. Então agressivamente eu disse a ela que continuaria recebendo cartas de quem eu quisesse, inclusive de homens, pouco me importava com isso, afinal, sou gay se é isso o que ela não quer que eu seja. Bem, daí desenrolou uma situação enfadonha, inclusive para lembrar e que no mesmo dia tratei de postar aqui. Leia o texto aqui.


Naquele dia um misto de sentimentos me vinha a todo o momento. Era alívio da verdade revelada misturado a nova pressão que se instaurava, a de ficar continuamente justificando o que para mim por si só já estava justificado, a de se controlar sendo polido e racional quando o que eu recebia do mundo era apenas emocional, ao orgulho da coragem obtida por conseguir o que muitos não haviam conseguido e talvez demorem conseguir.

Sol + Chuva = Arcoíris + Eu + Câmera = Blog.

Postei aqui acreditando que o meu texto tinha também um caráter de utilidade pública e em um tópico já criado, falando entre inúmeras coisas, o meu aviso aos meus iguais de que o conhecimento dos outros a respeito da minha condição havia mudado na comunidade do armário. Foram congratulações, elogios e muitas perguntas.

Sabe, de certa forma me orgulho e fico feliz por isso e por mais que no meu caso tenha sido através dos caminhos das pedras que cheguei a redenção, desejo isso a todos os outros esse relativo sucesso que obtive.

Pois bem, um ano se passou e os benefícios vivenciados por esse assumir para os pais – e sem saber para os avós, leia aqui - foram poucos. Sendo meritocrático, a culpa foi minha. Na terapia, refletindo a respeito de mim mesmo durante o ano de 2009, cheguei à conclusão de que o meu ano de apatia teve como culpado eu mesmo. Faltou realizações por ter faltado de mim os objetivos e sem querer ser sofista, o Universo, tanto faz aqui com letra maiúscula ou minúscula, não se abala sozinho para conseguir o que desejamos.

Bem, 2010 começa diferente. No blog a diferença essencial é a primeira postagem ser intencionalmente no dia do mês em que foi publicada a segunda de 2009. Claro, essa postagem aqui tem um caráter muito mais reflexivo do que o emocional que teve a outra e quiçá tenha um caráter simbologista.

Sobre 2010 defini algumas coisas. A primeira é que não vou me considerar mais no armário e nem assumido, sequer vou me preocupar com um rótulo, que é feito para potes de geléia e não para eu que me vejo como complexo, multifacetado, singular e humano, com o que mais nobre ou podre isso tenha. Uma forma que encontrei para dar fim a essa designação de armariado foi o fim da minha participação na comunidade Estou no Armário e daí?, assim como o do meu perfil Well Bernard no Orkut.

Saí da comunidade, pois a um certo tempo não me identificava mais com ela que surgiu num momento da minha vida caracterizado por uma recente autoaceitação, porém cheia da solidão e cercado por um horizonte incógnito e amendrontador. Lá tive meus erros, os quais não seriam repetidos se fossem hoje sem dúvidas. Não os lamento porque isso nada adianta e adiantar alguma coisa não é meu desejo.

Também houve meus atritos, minhas divergências, me chamaram de coisas ruins. Mas quem disse que também não tenho coisas ruins para dizer a respeito dos que me ofendem? Mas foi bom, infinitamente bom, imensurávelmente bom. Pois a ENAED desencadeou coisas que certamente não se desencadeariam sozinhas em mim.

Sei que terei muitas saudades das conversas nos botecos, as cantadas dadas e recebidas, das trocas de experiências, a paciência para ouvir os relatos, para dar e ouvir conselhos inseguros, errantes, mas sinceros. Das provas de amizades não imaginadas, principalmente a dada pelos amigos de São Paulo. Embora tenha sido bom, a ENAED nunca será o que preciso para mim, pois essas demandas já foram superadas. Também não terá o encanto da naturalidade com que as coisas decorreram. A hora de sair e de deixar a comunidade para os outros e suas trajetórias e projetos de vida chegou e eu a fiz.

Assim penso que seja melhor sair, pois faz muito tempo que eu não me identificava mais com a ENAED e assim não tinha mais eu algum entusiasmo para lê-la, dela participar. Sentia-me nela alguém alheio e distante. De tal maneira, discretamente a deixei apagando, por não ver sentido em manter a existência, de Well Bernard. Saí da comunidade para dar ponto um final em um importante capítulo do texto que pode ser a minha vida.

Voltando ao que eu dizia, 2010 é um ano de planos, entre os outros planos está tentar realizar uma vaga em algum projeto de mestrado na universidade e em proporção menor, aumentar a convivência com pessoas do meu universo sexual na minha cidade e quem sabe atender e ser atendido pela demanda afetiva de alguém.

E aqui termino a primeira postagem do ano 2010, no dia do aniversário da minha “assumição”.