sábado, 15 de novembro de 2008

O fim do dia



Estava bem tarde. Naquele horário já estaria em casa se fosse um dia qualquer e aquela a linha que estava acostumado a pegar. Toca a campainha e na quadra seguinte desse um dos dois passageiros daquele ônibus. Apressadamente sem nem olhar para trás se afasta do veículo que também se afasta seguindo sua rota.

A calçada irregular estava suja pelas folhas e galhos que caíram por causa da chuva que durou a tarde toda e o começo da noite. Desviava das poças d’água que formavam espelhos que refletia as marquises cafonas das lojas, o tom cinza e o desbotado dos prédios, a iluminação pública laranja onde gotículas formavam ondulações ovais.

Estava frustrado porque tinha demorado mais do que o comum para sair daquele campus e não ganhara carona por causa de um sujeito entrão e sem noção. Estava irritado também, não só pelo episódio da carona, mas também por ter que pegar um ônibus para outro lugar já que os da sua linha deixam de passar, embora não devessem, no campus depois daquele horário.

De certa forma sentia-se humilhado – por ficar para trás e por ficar esperando o ônibus que não viria, abandonado, não reconhecido tanto pelos amigos, que foram embora primeiro e juntos, como no geral. Sentia frio, embora estivesse apenas fresco. Na barriga uma sensação de vazio potencializadas pelo significado que tinha para ele as luzes de natal da cidade.

A sua frente o resultado da exclusão econômica e da falência social, um grupelho de mendigos debaixo de uma marquise dividindo solidariamente seus papelões e jornais. Ficou com medo, atravessou para a outra calçada com antecedência. Normal para quem também constrói de certa forma as barreiras da segregação social.

Andava lentamente e se pôs a pensar em quem não conhecia, não sabia o rosto, a voz, as idéias, o que fazia da vida, apenas deseja ter a companhia para um abraço, um beijo, para um sexo que nunca fez, ter a sensação de segurança, de desejado e pudesse retribuir o mesmo. Pensava que talvez pudesse ser o candidato alguém que conhecesse pela internet.

Na internet existem muitos caras legais, mas moram sempre longe e que talvez não vão gostar dele quando encontrá-lo pessoalmente, caso isso realmente aconteça algum dia. Ficou triste. Na sua frente aparece uma figura que não gosta, tem medo, quer distância, mas respeita. Travestis, pessoas que são para ele tanto pseudo-homens como pseudo-mulheres.

Ele não gosta de mulher e esse é um segredo que poucos sabem e não lhe é interessante muitos saberem, tampouco todos. Mulheres são para ele brochantes, chatas, irritantes. Travestis se parecem com mulheres por isso não gosta deles.

Homem é tão bom, porém tão proibido para ele. Não que vá ser assim tão proibido e sim porque ele pensa que seja. E por ser algo proibitivo, também pensa neles como distantes e difíceis de serem conquistados.

Mas é isso, ele gosta de homens. Adora a voz, a virilidade, a força física, a segurança a que isso sugere, o jeito pragmático, sem a embromação que as mulheres possuem. Gosta da anatomia, dos músculos, do corpo, tudo o que um travesti na sua individualidade nega, inverte e por isso não são homens do jeito que ele gosta.

O medo dos travestis se dá também por pensar que todos eles sabem do seu segredo de liquidificador, do o que realmente lhe faz feliz, o que ocupa sua mente, o que tanto deseja e o que lhe é também uma vergonha. E tem medo que eles de alguma forma manifestem isso numa, quem sabe, cantada ou comentário. Uma cantada seria a situação que lhe deixaria assustado, constrangido, mais irritado e mais frustrado. 

Travestis, de acordo com seus conhecimentos, andam armados com lâminas afiadas e a sua integridade física e mental conservada também é um desejo que possui.

Passa indiferente pela figura assim como os mendigos, que tem menos em comum com ele. Segue seu caminho, anda na beirada da calçada pensando numa eventual fuga de algum energúmeno realmente perigoso, como quem sabe um assaltante. Chega a estação, passa o cartão, olha as garis farreando. Repensa sobre tudo e pensa em escrever aquilo em algum lugar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Abrindo o armário para mais uma

A quinta-feira foi aniversário de minha amiga. Uma amizade que conquistei no grupo de jovens que participei no passado. Após a universidade passei pessoalmente na casa dela para dar um abraço de feliz aniversário e ali no portão mesmo ficamos falando daquilo que a muito não falavamos. Foi bom matar a saudade. Combinamos de no dia seguinte, a sexta-feira, irmos ao famoso chorinho do Grande Hotel e fomos.

Ela não conhecia o evento e gostou. Ali ao som do cavaquinho, do clarinete, do violão de sete cordas ficamos falando de trivialidades. Ela confia em mim, conta os segredos delas. As desilusões sobre o amor, a morte e as paixões. Na hora de falar de mim, eu não estava com saco para contar a ela sobre a menina sobre a qual para muitas pessoas eu menti uma paixão que nunca existiu. Há muito tempo desejava falar para ela a minha condição sexual e falei.

A coisa foi mais ou menos assim, ela falou do pouco caso dela amoroso pelo qual passa. Perguntou como é que as coisas vão para mim. Eu falei para ela que as coisas para mim são muito piores do que é para ela. Quando comecei a notar que ia me justificar demais soltei o "blá blá blá porque eu sou gay".

Minhas mãos estavam frias, eu não tinha me dado conta delas, apenas do meu coração disparado. Ela ficou com uma cara séria, na verdade ela não sabia como reagir, eu a peguei de supetão. Ela falou que nada ia mudar, continuaremos os mesmos com nossas amizades. É o que eu mais quero. Ela gosta de mim e ao longo do tempo me deu muita segurança.

Expliquei para ela um monte de coisas, porque eu me afastei da Igreja, porque eu não me assumo para todos. Falei da comunidade do Armário. Falei dos tipos da universidade, dos tipos presentes ali naquele chorinho. Eu me senti no ínicio envergonhado e até cogitei voltar atrás. Mas a minha vontade de levar aquilo a em frente era maior. Falamos muito, me justifiquei muito para ela sobre isso que eu não tenho culpa.

As coisas com ela até o instante se dando muito bem. 

No sábado fui a universidade e a tarde saí com o meu melhor amigo. Mas as condições não permitiam uma revelação sobre a minha sexualidade que ele no mínimo suspeita. Deixa estar. As coisas ainda vão dar certo.

***

Revelar a condição sexual não é uma obrigação. Eu não vejo como obrigação. Porém existem pessoas para as quais eu não preciso mentir e nem omitir. Revelando eu ganho mais pessoas para contar, consigo saber quem continua comigo e tenho que me oprimir menos, ou nem mesmo me oprimir. 

Oprimido, é assim que me sinto quando tenho que ficar omitindo ou mentindo a minha sexualidade. Me sinto numa prisão, violentado, acuado, silênciado, desperdiçado.

Achar que todas as pessoas são homofóbicas, que não tolera uma pessoa homossexual, que elas não merecem confiança para revelarmos a nossa condição sexual, também é preconceito. Infelizmente existem pessoas que pensam assim. Azar delas não ter pessoas, como as que eu tenho, para as quais eu posso revelar a minha condição. Algumas pessoas já sabem de mim e não me arrependo disso.

Falar que as coisas são ao contrário do que eu penso é fácil. Pode dizer que se pensa assim por causa da experiência também é fácil. Porém experiência mal sucedida não serve para dizer que todas as outras também serão, nem ao menos serve para dizer que será sempre assim. Afinal estamos lidando com pessoas, indivíduos complexos e singulares. .

Só resta saber se quem disse ter aprendido com a vida realmente teve por onde aprendeu e questionar se o que aprendeu também é o certo.

***

Apesar dos que me chama de equivocado, para não dizer errado, por não ter o estar no armário como uma religião, por eu ter a coragem de sair fora dele e não me arrepender - embora pelas falas parece querer que eu me dê mal; eu estou muito bem.

O final de semana teve uma chuva, não como eu queria, mas choveu. Antes dela um pouco teve a Fórmula 1. Lewis Hamilton é um gatinho, mereceu a vitória, mas se olharmos o saldo de vitórias do Felipe Massa, saberemos que o brasileiro teve um desempenho melhor. Não somos campeões por culpa daquela Ferrari inconpetente. Eita Cingapura que vai ficar na história.

Bom, sei que dei um grito quando o Vettel ultrapassou o inglês. Minhas mãos tremiam, meu corpo estava gelado, meu coração estava disparado, muito mais do que quando me revelei a minha amiga. A emoção foi boa para testar o coração.  Chato foi o Timo Glock ficar sem tração por causa dos pneus para pista seca. 


A música é Fechar os Olhos da Valéria Coista, cantora goiania cujo site (www.valeriacosta.com) dispõe de downloads gratuitos das músicas de todos os albuns. Recomendo que vocês baixem a versão do Acústico, o último albúm.

Acho essa música super a ver por causa da letra que entre muitas coisas serve para falar desses conselhos infelizes que ouvimos e dessa vida de se esconder, renúncia para sermos algo que não queremos e que não somos.