domingo, 16 de setembro de 2012

O essencial é invisível aos olhos

Não gosto da morte, ela me causa medo por causa da sua natureza irrefutável. Não gosto da morte principalmente quando ela se mostra presente ou no mínimo próxima das pessoas jovem como eu. Não gosto da morte por ela me lembrar que um dia ela levará embora e para sempre todas as pessoas que um dia eu tanto amei, ou que se eu morrer por esses próximos tempos, morre junto outros tempos depois e de tanta tristeza quem eu tanto amo.

Essa semana a morte me deu um chacoalho e por dentro eu senti frio, apesar dos recordes anuais de temperatura, como de costume acontece em Goiânia em Setembro, ao final do inverno. Havia lido e rapidamente no Facebook que um amigo estava na UTI e a princípio até relativizei. Ele é paciente cardíaco e às vezes seu coração prega essas peças desagradáveis e perigosas, porém, até onde eu lembro, não ao ponto de ir para a UTI. 

No cair da noite eu me distraia com as coisas vãs da internet enquanto me arrumava para ir dar aula. Alguém me disse que o amigo estava na UTI por ter tentado suicídio com superdosagem de medicamentos. Tenso, fui dar aula com o humor mais recatado. Veio a tona aquele medozinho da morte na lembrança de que somos temporários e todas as coisas que fazemos, de que é com ele, mas que pode ser comigo. Se bem que nunca tive vontade de me matar, mesmo nos dias em que eu talvez tivesse alguma justificativa plausível para tal e pudesse me julgar infeliz. Sempre fui covarde ao ponto de sequer me permitir pensar na possibilidade, é porque ter vontade de morrer para mim também é questão de coragem.

Aproveitei a deixa e a vontade que a gente sente de compartilhar com alguém algo que remoemos por dentro e contei à minha mãe sobre o acontecimento, da sexualidade do amigo, da inaceitação de sua família quando ele se revelou, dos revestrés pelos quais ele tem passado nos últimos tempos. Minha mãe também se sentiu mal, acho que porque existem similaridades clássicas na vida de qualquer homem gay cuja família em princípio e no mínimo é ignorante em relação ao assunto. Fora que assim, a possibilidade de um suicídio, mostra bem a quem quer que seja que não é lá as melhores das opções para quem prefere dizer que preferiria chorar em cima do caixão do filho ao invés de tê-lo gay, coisa que minha mãe nos dias da notícia disse.

Pois bem, os dias dessa longa, quente e, sem sombras de dúvidas, desagradável semana se passaram. O amigo teve alta e ontem o fui visitar. Pensei em levar algo para ele que falasse um pouco dos meus sentimentos, algum presente que para ele que pudesse fazer diferença ou algum sentido em um momento de confusão e incógnita, que não fosse assim tão efêmero e o principal, que custasse barato, sabe como é salário de professor. Fui com seu namorado ou, enfim, não sei como meu amigo trata quem vive com ele na casa dele, ao shopping. 

Olhei com um tédio tamanho para as vitrines, eu estava com fome também. E em uma esquina do shopping vi aquele azul peculiar e acelerei o passoe entrei dentro da Livraria Leitura. Pensei em algo no sentido de Maria Bethânia, meu amigo também gosta de Maria Bethânia e isso seria ótimo. Sim, eu não gostaria de dar a ele um presente que eu acho que deveria ser dado primeiro a mim... esse é o meu amor próprio falando mais alto. Mas aí tive uma ideia melhor, perguntei ao vendedor onde estava o Pequeno Príncipe, e ele me mostrou uma prateleira com livros em ofertas na qual havia uma pilha de livros com um garoto de olhos azuis e cabelos amarelos. Achei o preço salgado, como sempre, por um livro de um autor que provavelmente deve estar em domínio público, enfim, depois confirmo isso. Procurei alguma caneta para escrever a dedicatória e achei tudo muito caro até que fui à seção de papelaria e comprei uma Bic Azul Cristal por R$1,00.

Após comida árabe, atravessar longamente a cidade, encontramos o amigo. Rolou beijo gay com o namorado na porta da vizinhança e eu aproveitei a deixa para não fazer papel de lanterna, digo, vela escrever a dedicatória. Não lembro o que escrevi, era simples, mas era sincero, entreguei o livro à ele, que disse que há muito queria lê-lo, só que nunca tivera a oportunidade. Pena a recuperação dele ainda demorar para acontecer plenamente, a visão não permitiu que ele lesse na minha frente a dedicatória. É que gosto de ver a reação das pessoas no exato momento em que elas leem minhas porcarias, como vocês neste exato momento.

Tudo bem, a irmã dele, um tanto quanto histérica começou a ler o livro e falei sobre o desenho do livro que no dia que eu tiver um corpo moreno, sarado, gostoso da cor pecado eu mandarei tatuar na minha barriga. Falei também sobre a raposa e de ficar feliz desde às três  por saber que alguém que gostamos vai chegar às quatro e pensei sobre olhar os dentes de tigre no campo para lembrar do sorriso de alguém, enfim... me senti bobo e caipira... mas gostei de tudo isso hoje.

Agora em casa, são mais de três horas do domingo, faz calor, ventilador ligado, chuva é apenas uma promessa, enquanto a primavera definitivamente não chega. Impossível dormir, dado o calor, a ansiedade e pensar em todas essas coisas dos últimos dias, sejam elas boas ou agradáveis. Bem, sobrou escrever aqui e salvar outra vez, como sempre, o blog do abandono. 

Bem, é isso,

Peixos, me liga. 

2 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

muito lindo e bacana tudo isto amigo Wel ... Nada de bobo ou caipira, simplesmente um momento de autenticidade e de liberdade de sua parte ... tem mais q se orgulhar de tudo isto ...

peixos

FOXX disse...

"esse é o meu amor próprio falando mais alto", isso não é amor próprio é egoismo.

e concordo: se matar exige mais coragem do que qualquer outra coisa.