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quinta-feira, 18 de março de 2010

Sobre a libras

Falar para eu mesmo que sou gay foi complicado porque gay não significava apenas quem gostasse de pessoas do mesmo sexo. Embora fosse repetido e eu tentasse acreditar, ainda tinha comigo a imagem de que gay é mais do que é isso, aliás, é menos do que os outros, que gay é inferior.

E sabido, pelos padrões sociais que são empurrados, que temos que ser perfeitos, dentro daquilo que é colocado pelas instituições, pela publicidade, que diga-se de passagem é uma coisa que faz mal e está serviço dele, e pelo consumo como perfeito. Na construção do impõe como pessoas perfeitas, coisa que tento alcançar as vezes sem me dar conta, não entra o homossexual, apesar que tenham aí um discurso dissonante, mas ainda sim mínimo querendo mudar isso.

Pronto, agora assumi para mim que sou gay, mas acabei admitindo para mim também que sou inferior no fundo também. Na verdade não assumi que sou gay, admiti que sou bissexual, porque é menos pior, apesar que de mulher mesmo nunca tivesse eu gostado e nunca fui bissexual, também decidi que não faria amizades com pessoas do “meio”, não deixaria ninguém saber disso e por aí vai. Conforme vou incorporando que não é inferior, vou evoluíndo, conto para terapeuta, que já sabia é claro, para amigos, pais, e alguns lugares públicos pouco me importa saber se os outros vão entender isso, que eu sou homossexual mesmo, na maior parte do tempo passivo.

Fazer Libras foi também uma realização pessoal na qual serviu também para eu fazer todas essas reflexões que coloco nesse texto. Não que eu não soubesse disso tudo que estou escrevendo aqui, é que eu não tinha sistematizado para mim mesmo do modo claro que até eu entendesse, o que faz com que eu conclua que o processo de auto-observação e auto-entendimento é delongado e contínuo.

Aos poucos fui me conhecendo e aos poucos fui perdendo o medo que tive de mim, porque passei aos poucos a me entender. Com surdos, com cegos, com pessoas com deficiência mental, cadeirantes e tudo mais é a mesma coisa, apesar que penso que auto-aceitação, pelo menos para aqueles com deficiência nativa, não tenha sido o caso.

Mas no fundo quando pensamos nessas pessoas, mesmo que queiramos ser inclusivos, somos preconceituosos, porque temos medo de magoá-las e não entendê-las como é o meu caso. Mas ainda bem que posso me dar ao luxo de ser racional usando dessas emoções que me vêm agora, revolta, vergonha, orgulho, satisfação, medo, inconformismo, porque assim posso me dar conta do quão limitado eu é que sou e como se aprende a cada a instante.

Não não não! As melhores lições não são essas que estão escritas em longas dissertações, teses, artigos, livros, palestras e tudo mais. As melhores lições são essas que se assemelham à Libras, as que de tão simples que são acabam se tornando complicadas serem percebidas, aprendidas como os seus sinais e gramática, que se assemelham à essa reflexão que fiz e que certamente não estava na ementa da disciplina.

Aliás, porque estou escrevendo isso? Pouco importa. Estou atrasado para o lançamento do livro da Vaca Profana.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sobre política

Esse 2010 é ano de eleições e vou entrar no mérito político hoje. Se você é de direita, vota no PSDB, tem saudades de FHC e lê Veja, não leia.

Eu gosto do Governo Lula e quero que ele faça um sucessor. Não acredito na boa vontade de quem diz que deve haver alternância de poder. Acredito que em time que está ganhando não se mexe e com o governo Lula eu acho que estamos ganhando, não só na economia como quer a grande imprensa convencer.

Se os que acreditam em alternância de poder acreditasse nos benefícios dela, não estariam governando a 16 anos São Paulo ou a 12 o meu estado goiano. Na verdade é apenas quem está de fora querendo entrar para pegar a galinha dos ovos de ouro e assim voltarmos ao passado, que é o que essas pessoas para mim representam.

Entre várias coisas no governo Lula, existe uma que vejo como muito positiva para eu que sou homossexual, o acesso que os movimentos sociais tiveram ao governo. Exemplo disso são as secretarias especiais, criadas no começo da primeira gestão ainda, como a da Promoção da Igualdade Social, Mulheres e dos Direitos Humanos, onde nós homossexuais entramos.

Com isso muitas coisas tem acontecido para as minorias e que são certamente avanços. Uma das coisas que me faz acreditar nesse avanço é a propaganda do Governo Federal cujos protagonistas são um casal de homossexuais:

Achei a propaganda ótima, ainda mais porque ela não é estigmatizando e nem cria um esteriotipo, aliás, vai numa direção contrária a isso. Dois rapazes, não efeminados e discretos, coisa que a maioria da socieade não imagina que os homossexuais também pode ser, indo fazer algo que aparentemente é sexo casual, o que muitos homossexuais, entre eles os do armário, fazem muito.

Para muitas pessoas a propaganda, bem como os simbolos presentes nela, passa despercebida. Porém essa propaganda é o fruto do que os movimentos sociais tem conseguido fazer no Governo Federal, colocar no Estado políticas públicas, inclusive a publicidade, direcionada aos homossexuais, que é um dos grupos que mais se contaminam por HIV e já não bastando a sexualidade, ainda sofrem preconceito por isso.

Para muitas pessoas também, esse acesso dos movimentos sociais ao Estado e na decisão de políticas públicas no governo Lula não significa nada, mesmo que concordem que seja importante. Porém é no governo Lula e em partidos como o PT, que tem sim seus problemas, que essas discussões, bem como propostas e ações, entram.

Em outros partidos, como o PSDB e o DEM, não se vê candidatos com essa plataforma, raramente aliás. E não que seja uma política, um diretriz do partido, mas é sabido, que os reacionários, que vetam os direitos dos homossexuais, como a PLC 122 que apelidaram-na de lei da mordaça gay, estão em partidos como esse.

No PT e em outros partidos da base aliada, vê-se um posicionamento do partido a respeito de causas controversas como os direitos civis e outas políticas públicas que contemplem os homossexuais. Tudo bem que outros partidos não se posicionem contra, mas quando eles não têm um posicionamento e ainda por cima permitem que se tenha gente contrária ao que vejo como fundamental a mim, não posso acreditar neles nesse aspecto.

Bem, é isso.