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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O motel, O Rei do Gado e o talão de cheques do Itaú

Finalmente os primeiro salário como professor chegou e não foi nada animador. Mas eu vou ser professor? Bem, essa é a pergunta que eu fiz, pela enésima vez, ao olhar para o saldo da minha conta. Mesmo ganhando menos do que eu acho que eu deveria ganhar comecei criar uma série de gastos. Muitos deles poderima ser evitados, afinal de contas, ninguém precisa ir ao motel três dias seguidos. 

Apesar de ter gasto com todas essas idas até lá uns 70 contos, fora meio tanque de gasolina, que assim como preço do álcool, está com o valor pela hora da morte, valeu a pena ter ido lá fazer traquinagens. Na última vez que estivemos lá, na transa da despedida, ele formalizou a vontade de namorarmos. Sinceramente eu fiquei com vontade, mas sabe-se lá porque, ele acha que eu sou um corrimão de escada e por tudo que passamos juntos naquele pouco ele não me pareceu muito fiel. Está bem, que estou com muita vontade de ir em frente, mas também estou com medo de ir em frente e ser humilhado com a infidelidade dele. Ok, a noção é que ao nos bejarmos ele segura um machado e eu uma foice e ambos esperam a primeira pisada de bola do outro para... bem, fazer o que geralmente uma pessoa faz com um machado ou uma foice quando não quer trabalhar.

Tudo bem, vamos deixar rolar, confiança venha com o tempo e talvez eu nunca tenha. Mas tomara ela existir, embora talvez ela nunca venha, ainda mais numa relação que depois das duas primeiras horas terminou em um motel. Será que eu sou tão inteligente e cativante assim ou sou burro mesmo. Bem, já deu para sacar, estou com medo e ao mesmo tempo estou com vontade de ir adiante.

Vamos lá, assinei um plano de TV por assinatura que não é da NET, ninguém mandou ela cobrar o dobro pelo que a concorrência pode oferecer. Próxima semana começa no Viva a reprise de O Rei do Gado, novela cuja primeira exibição foi em 1996 e que me faz pensar que a Globo já não faz mais novelas como antes. Mas vou assistir O Rei do Gado para não só lembrar da história dos personagens, mas também da minha própria história, uma vez que sua exibição foi paralela e mexeu com o imaginário de alguns meses da minha vida.


Eu ouvia e achava lindo.

Quando a novela foi exibida pela primeira vez, viajámos em julho para o sítio do meus avôs maternos em Minas Gerais. Naquela ocasião toda a família da minha mãe estava unida ao redor deles. Lembro de a sala da casa da minha tia, que morava na propriedade vizinha, ficar cheia com gente da cidade, ali da zona rural mesmo, de Goiânia, Uberada, interior de São Paulo, enfim, vendo o MST invadir a propriedade do Bruno Berdinazzi Mezzenga que tratou de matar um boi para alimentar aquele povo todo. E o Carlos Vereza, que é bem de direita, fazer papel de um senador de esquerda. Lembro de brincar com meus primos e seus amigos que eram naturais dali. Brincávamos debaixo de um pé de manga no qual meu avô deixava o carro de boi, que era nosso castelo, casa, carro, caminhão, palco das nossas  duplas sertanejas no estilo Pirilampo e Saracura (nome da dupla sertaneja que Sérgio Reis e Almir Sáter fizeram na novela) e brigarmos com um primo uns dois anos mais velho e que hoje mora nos EUA porque ele queria que não ficássemos brincando ali. Dizíamos que ele se achava o Rei do Gado e num era ninguém.

Bem, lembro que a minha avô materna não entendia o que queria dizer o Gustavo Borges ganhar sua medalha de ouro em Atlanta, assim como lembro dela fazer biscoitos, pão-de-queijo, canjica, arroz doce com o leite que meu avó ordenhava todas manhãs. Lembro dela ensinar a mim e aos meus primos brigar com meu avó para ele "sungá" (erguer) as calças e dela me colocar no colo e contar para mim as histórias sobre Deus ter criado os animaiszinhos (?) e dos lobos (guarás) que iam matar as carinjós dela durante a noite. Como meus avós moravam em um bairro rural onde até hoje a agricultura familiar é predominante, íamos a pé jantar ou almoçar na propriedade de alguma tia ou primos da minha mãe e tios. Lembro que meu avó me carregava na garupa do cavalo, afinal de contas eu era o xodózinho porque é o que morava mais longe e na cidade grande, o que não conhecia essas coisas do campo. Ali, sobre o tal animal eu me sentia meio que um Rei do Gado.

Hoje estava olhando o meu talão de cheques, a conta tem apenas três meses de idade, mas nas folhas está impresso que sou cliente do sistema bancário desde abril de 2002. Na verdade deveria ser mais tempo, desde 1991 se for contar meu tempo enquanto cliente do Banco do Estado de Goiás, que foi comprado pelo Itaú. Quem trabalha com cobranças e análise de crédito deve saber que quanto mais tempo de correntista consta impresso no talão de cheque, maior a facilidade para um cliente ser aprovado. Não é grande coisas para quem adora um cartão de débito ou crédito como eu, mas se hoje tenho um talão de cheques que conta com esse detalhe interessante é graças ao meu avô materno que em 1991 mandou abrir uma poupança para mim e depositou um significativo dinheiro para os padrões da época. 

Estou pensando no talão de cheques e na novela O Rei do Gado porque quando esta foi exibida, foi a última vez que vi minha avó materna viva. No ano seguinte ela se suicidou e após isso a família entrou em atrito, alguns tios hoje não se falam, embora sejam irmãos. E no final do ano passado meu avô materno morreu. Quando morreu pensei que não estava eu perdendo lá grande coisas, nunca pintaram um bom quadro dele para mim, disseram que se não fosse o jeito mulherengo dele toda família teria uma condição social muito melhor do que tem hoje e minha avó provávelmente viveria mais anos. Quando o vi enterrando na cidade de uns tios que tenho no interior de São Paulo, não chorei, senti que não tinha nada de muito importante meu indo embora. Bem, atualmente não choro a morte do meu avô, mas essas lembranças da novela e a data às vezes irrelevante do talão de cheques me faz pensar que acreditar que dizer que meu avô não fez a diferença é de uma grande limitação da minha parte e talvez uma defesa que crio inconscientemente com medo de admitar o luto.

Coisas loucas. Bem, é isso, peixos, me liguem e me twitem. 

Vou ver Glee.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Era sobre religião, mas falei mais sobre a avó

Quis escrever esse post na segunda feira. Mas naquele dia uma notícia nada agradável chegou. Minha avó não vai bem, foi trazida para a capital, está mal do coração. Até agora os medicos não dizem muito bem o que está havendo e nem o que pretendem fazer. A falta de informações objetivas tanto quanto a situação dela tem causado na família, ou em boa parte dela, uma grande angústia.

Minha avó é daquelas avós matriarcas. É a que toma partida dos filhos, netos e bisnetos. Juntamente com meu avó não gosta de ver ninguém da família brigado e a satisfação deles é o natal, o ano novo e datas afins com a casa de cheia dos filhos, netos e bisnetos. Gente que somada daria talvez uma centena de pessoas, aquela família bem ao tipo das propagandas da Sadia ou da Kodak.

Tenho passado bem esses dias, eu não consigo manifestar preocupação e nem sei se mostrar resolve alguma coisa. Mas sempre vem a qualquer momento o fato da condição de saúde da minha avó e isso faz as coisas ficarem meio amarga, azedas e ou frias.

Tudo que eu não quero agora é lidar pela primeira vez com a perda de uma pessoa próxima. Eu não vejo a morte tanto assim como fim de carreira, mas é importante ter em mente que penso assim só porque nunca lidei efetivamente com a morte. Mas sou bem otimista, estou confiante, acho que todo essa deja vu é apenas um sinal para minha avó rever um pouco dos hábitos dela.

Bem, mas mudando de assunto, domingo teve aqui em minha cidade um culto de um grupo inclusivo. Eu fui para matar a curiosidade. A dinâmica é a mesma dos cultos tradicionais e as crenças também, a diferença é que a homossexualidade é lidada como algo normal e lógico, os presentes são declaradamente homossexuais.

Durante o culto me identifiquei como ex-católico, até aí nenhuma mentira. Porém menti pois não falei que se quiser acreditar no que eles acreditam ali não dá para mim dado às minhas concepções atuais a respeito da existência de Deus e das religiões. Me senti constrangido também, mas não orei em momento algum, fiquei em silêncio, como aquele que hora em silêncio?

Poderia eu dito a verdade, que sou ateu e que estou ali mais para conhecer as pessoas, para ter experiências, conhecer as ideias deles e não para declarar fé em algo que mesmo que eu quiser, não vai dar para acreditar, pelo menos não por agora como eu disse. Achei meio ingênuo e ou intransigente a Bíblia ser utilizada inclusive como fonte de norma moral, pois é a mesma Bíblia que trata a homossexualidade como amoralidade e define o que é moral ou imoral na sexualidade, entre outras coisas, enfim, uma outra discussão.

Bem, foi isso.

 

P.S.: Estou aparentemente meio ausente da blogosfera pois tenho utilizado o Google Reader para lê-los e acho que comentários, embora agradáveis de serem recebidos, são um trabalho a mais para a preguiça exagerada do Well ou sua falta do que dizer. Mas estou acompanhando e gosto de todos vocês.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Minha mãe e minhas gorduras

Eu no meu quarto sem camisa, minha mãe entra, se senta a cama, me olha de cima até embaixo e diz:

- Êhhh, mas você está gordo!

Pronta e rispidamente eu respondo:

- Não precisa falar, eu já sei que eu estou gordo.

- Porque você me trata mal se eu te trato bem? [/nem pensei na música de Pedro Luís e a Parede] Que mal tem eu dizer que você está gordo?

- Mal? Na verdade que importância tem eu saber que você me acha gordo. Eu sei que eu estou gordo e não gosto nenhum pouco disso. Você falar que eu estou gordo não vai ajudar em nada para resolver meu problema.

Então começa as lamúrias da minha, ela diz que eu sou ríspido, grosso com ela, que meu primo não trata minha tia assim, que a fulana só anda abraçada à mãe dela, que coisa e tal e tal e coisa, que é assim assado e zaz. Ela ficou magoada, a voz embargada.

Tudo bem que eu tenho engordado, isso tem me deprimido, abaixado mais minha autoestima e feito me sentir um Shrek, que o que a minha mãe tem a me dizer ofende de certa maneira e não tem compromisso algum em me ajudar, que ela é adepta de um dramalhão mexicano, mas o que ela disse não deixa de ser verdadeiro. Eu sou muito ríspido com ela. Porém não sei porque respondo de forma tão raivosa as perguntas idiotas que ela me faz, a destrato com regularidade, a minha crítica com relação a ela é mais acirrada, enfim.

Ela se sente desprezada, apesar que eu não a desprezo e de forma alguma ela mereça meu jeito grosseirão. Pior que é só com ela que eu sou assim. Mas eu a amo muito mesmo e deveria dizer isso a ela e não escrever aqui. Mas eu a amo, sinto falta dela e me arrepio quando penso saber que um dia ela não vai voltar. Contudo meu amor é uma discreta rosa branca com espinhos [/lembrei do texto do Lobo Cinzento].

Não que eu tenha menos amor para com a minha mãe - e acho errado medir amor ou pelo menos medir esse amor fazer escala e tudo mais. A questão é que não aprendi a lidar com a minha mãe, com como ela entende o que é o amor é manifestado e não tenho me esforçado para tal.

Me falta mais policiamente e reflexão. Tempo é necessário? Talvez, mas enquanto isso tenho destratado minha mãe e ela se ferido comigo. O meu tempo vai acabando, deveria eu aproveitar enquanto, ainda talvez, tenho o amor dela e assim não a magoasse mais e nem me deixasse também chateado.

Estou zangado comigo e nem ao luxo de me chamar de filho da puta agora eu posso, pois na verdade sou mesmo é um filho de chocadeira, gordo com meus parcos 167cm que mal estão servindo em uma calça 42, que a toda vez que me sento tem aquela barriga se projetando a frente, perdendo eu a elegância e a atraência sexual.

P.S.: Acho que eu fui o único leitor da postagem do Braccini sobre a gordura e não achei a menor graça.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Um dia de cão

Eu tentei uma vez, tentei outra vez, tentei mais outra vez. Tentei ser legal, ser palhaço, ser sério, carrancudo, mas não deu certo. Levando o data-show para a secretaria da escola lá estão um monte de gente, coordenador pedagógico, secretária chefe, coordenadora de turno, diretora e perguntam outra vez em unissono:

- Eaeh?

E eu digo:

- Amanhã (no caso hoje – data dessa postagem) eu faço 21 anos, ou seja, se eu começar outra graduação que não tenha nada a ver com educação eu ainda vou me formar novo.

- Estamos falamos, eles (os alunos) massacram.

- Lá na Universidade é tudo bonito, agora você acredita que aqui é diferente.

- Não tem jeito, eles não querem aprender.

Coitado de mim. Pobre menino sonhador, acordou para a vida. Não quero admitir, mas os alunos são realmente alunos. Bando de filhos da puta, sem luzes. O pior que o mais filho da puta e sem luz sou eu, quatro anos praticamente em uma Universidade, lendo tanto, pensando tanto e não dou conta de dar um jeito nos guris. Os alunos são uns filhos da puta, mas não tanto quanto eu. Que fiasco, não conseguir dar uma aula que preste é um fiasco. Será que se eu fosse um médico deixaria o paciente morrer?

Estava assistindo hoje a tarde os capítulos que faltavam de Glee para entrar em sincronia com a exibição da série. Lá pelas tantas do episódio 18, o telefone fixo toca. É pap ligando, adoro ID de chamada. Por causa disso nem atendo telefones cujo DDD comece com 4 ou 5. Sempre é algum separatista lá do Sul vendendo assinatura de revistas ou cartão de crédito em troca de um salário mínimo de fome.

- Pai.

- Cadê sua mãe?

- Pondo roupas na máquina.

- Vem aqui no Hospital [/a barriga do Well vai glaciando progressivamente] de Urgências me buscar, porque eu caí da moto!

- Tá, mas e você, como está? [/voz meio tremula]

- Não, estou bem, mas preciso ir para outro hospital. Vem logo! Mas cuidado como vai falar para a sua mãe!

Quando meu pai fala que está bem, mesmo que ele não esteja necessariamente bem como queríamos, dá para respirar aliviado. Meu pai é muito prático, só diz que está com dor quando estar com dor. Não tem nada com ele que não pode ser resolvido com um pouco de palavras. Ele é um ótimo adepto de o que não tem solução, solucionado está. Vou puxá-lo nisso eu acho.

- Mãe, não fica preocupada, meu pai caiu da moto, está tudo bem, ele disse para eu ir lá pegar ele no hospital. [/sorriso “Olá, vamos fazer seu cartão Hipercard hoje?” style]

- [/minha mãe incorporando a Maria do Bairro] Como assim está tudo bem? [/eu fazendo cara de Soraya Montenegro na parte que ela diz: “Calma Maria do Bairro”] Ele está bem?

- Está, estou indo lá oh, peixos me liga!

- Eu vou com você.

- Aí meu coo, você vai enrolar.

- Eu vou, é meu marido! E a moto?

- Mandou lembranças?

- O quê?

- Ah, num sei, liga para o meu pai e pergunta, depois que sairmos!

E assim foi o dia lindo, com os capetas da escola, alunos carrascos e funcionários para dar apoio moral, e os capetas do serviço público de saúde. Que coo, vai para classificação de risco, consulta com médico, tira raio X, consulta com médico de novo, toma injeção, faz curativo, põe atadura. Aproveito e ligo na Vivo para comer o cu deles ou os 30.000 pontos de volta. Faço cara de dózinha para aqueles adolescentizinhos munitinhos que vão chegando com a mãozinho, o pézinho quebradinho, torcidinho, deslocadinho, luchadinho, e penso, tão bonitinho, tão dodói, deve ser outro filho da puta que fode com a vida e a autoestima profissional do professor.

Saímos lá do pronto socorro ortopédico as 22:30. Eu cansado, chateado, minha mãe ligando para família nos quatro canto do estado para dar notícias, o rádio ligado na CBN e eu pensando, como essa vinheta é melhor do que ouvir a mesma história pela quinta vez. Por fim, resta passar no pit dog e comprar uns X-tudos.

Enfim, feliz 21° outono Well.

P.S.: Por mais que quem eu deseje ganhe as eleições, continuarei não confiando na Previdência Social. O que é melhor, VGBL ou PGBL?

terça-feira, 11 de maio de 2010

Pois bem…

A Marcha Nacional Contra a Homofobia não foi no domingo, dia 09. Resultado, eu fui passar o dia das mães com o avó e ainda irei a marcha, que será dia 19, que não por acaso é o dia do meu 21º outono. Acho que será lindo, apesar de provalvemente minha mãe chorar porque o filhinho dela vai passar o aniversário naquela Brasília corrupta com um monte de pessoas… bem… não heterosseuxais.

Já a casa dos avós foi aquilo de sempre, prometemos que a família aqui na capital iria no sábado depois do almoço e fomos na sexta a noite. Acordamos os velhinhos a meia noite com serenata, vaso de crisantemos (aquelas flor de morto), choros femininos e flashes das EasyShares, CyberShots da vida. No outro dia teve churrasco na beira do rio, cerveja e truco.

E lá do alto da ponte ficamos os primos adolescentes e saídos da adolescência vendo os atraso dos infantis e pré adolescentes. Bom mesmo foi ter visto aquele primo, não o segunda ovelha colorida da família, mas o outro que eu disse, primo como você cresceu. E ele, que tem 15 anos, continua crescendo, e eu internamente gritando dentro de mim, batendo palma e fazendo coro, “cresce! Cresce! Cresce!” Quando ele foi tomar banho de rio, gracinha!, notei que ele já tem aqueles pelinhos que descem do umbigo.

Bom, mas deixa o primo lá no interior. O importante é que rapazes interessantes aqui na capital dizem que eu sou um gostoso. Para mim gostoso não é exatamente bonito, mas é um bom elogio e um daqueles que tem um forte apelo sexual. Tudo bem que também disseram que eu sou um “gordin” gostoso e quando ouvi isso eu disse, vá para a casa do caralho! Graças a Deus! Afinal de contas, não é porque eu tenho 1,67 e não visto mais 40 que eu sou gordo, KCT.

domingo, 2 de maio de 2010

Família, Tradição e Homossexualidade.

A Marcha Nacional Contra a Homofobia em Brasília acontecerá no dia das mães. Ótimo? Não muito para mim, porque não tem um dia das mães na minha memória que eu não tenha passado com a minha mãe na casa dos meus avós no interior com o resto da família.

Até agora não recebi nenhuma resposta dos organizadores e isso complica a minha situação. Quanto mais em cima estiver, caso eu ganhe o transporte, mais complicado vai ser para convencer e deixar a matriarca, sempre ela, se acostumar com a idéia e aceitá-la.

Também complica porque, afinal de contas, a primeira ovelha colorida da família – sendo que existe uma segunda que ainda precisa se descobrir, se desabrochar, mas cada qual com o seu processo – que sou eu, além de quebrar a tradicional heterossexualidade da família, ainda por cima, pretende quebrar os tradicionais dias das mães debaixo das asas da avó.

Mas é isso, bater de frente com o mundo é preciso. Já não dá mais para abaixar a cabeça e ficar acomodado esperando o mundo mudar. Agora é escolher matar ou morrer. E quem vai mudar o mundo, o meu pelo menos, sou eu em pequenos exercícios como o de quebrar as convenções familiares.

Ai, eu estou sendo meritocrático? Odeio meritocracia, elas sempre disfarçam um problema mais sério. Bem, agora só resta saber se vai ter ônibus de graça para Brasília. kkkk

P.S.: Prezados, obrigado pelos comentários no vídeo abaixo. Sabia que ele seria comentado e que vocês o achariam um amor. Melhor ainda por cima é que eu fui desejado sexualmente por alguns, mas isso fica em off. Mesmo saber que se é desejado seja algo que infla o ego.

P.S.:² Pois bem, eu faço Libras há 2 meses mais ou menos e um pouco do vídeo é mais meus estudos independentes. Postarei, talvez, uma outra música em Libras. Não sei qual, mas se quiser sugerir. Só não me apareçam com pagode ou com funk. Yeshua.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Aqui começa 2010

Hoje é dia 08 de janeiro, data que certamente vou carregar por toda vida, pois ela adquire para mim um significado relevante. Ano passado, nesse mesmo dia, aproximadamente às quatro horas da tarde minha mãe chegava do trabalho, conferia a caixa de correio e depois vinha até o meu quarto para dizer essencialmente que não era para eu receber cartas de homens. O que havia chegado para mim naquela quinta-feira era uma carta do Mário, não a primeira dele para mim, muito menos a primeira oriunda de um homem.

Quando ouvi o imperativo da minha mãe logo me desconcentrei do filme que assistia aqui no PC, De Porta em Porta cujo enredo não me agradou, era bem neoliberal e meritocrático. Comecei a pensar por quanto tempo iria brigar com minha mãe, iria mentir a respeito da realidade para os meus pais para viver como o que eu realmente sou. Pensei no e se eu falasse agora. Me veio medo, veio receio, veio a adrenalina e veio uma insegura decisão que uma vez tomada eu não iria voltar atrás.

Minha mãe estava sentada na minha cama esperando algo, não sei bem o quê, talvez tivesse pressentido que eu iria falar algo muito sério a
ela. Então agressivamente eu disse a ela que continuaria recebendo cartas de quem eu quisesse, inclusive de homens, pouco me importava com isso, afinal, sou gay se é isso o que ela não quer que eu seja. Bem, daí desenrolou uma situação enfadonha, inclusive para lembrar e que no mesmo dia tratei de postar aqui. Leia o texto aqui.


Naquele dia um misto de sentimentos me vinha a todo o momento. Era alívio da verdade revelada misturado a nova pressão que se instaurava, a de ficar continuamente justificando o que para mim por si só já estava justificado, a de se controlar sendo polido e racional quando o que eu recebia do mundo era apenas emocional, ao orgulho da coragem obtida por conseguir o que muitos não haviam conseguido e talvez demorem conseguir.

Sol + Chuva = Arcoíris + Eu + Câmera = Blog.

Postei aqui acreditando que o meu texto tinha também um caráter de utilidade pública e em um tópico já criado, falando entre inúmeras coisas, o meu aviso aos meus iguais de que o conhecimento dos outros a respeito da minha condição havia mudado na comunidade do armário. Foram congratulações, elogios e muitas perguntas.

Sabe, de certa forma me orgulho e fico feliz por isso e por mais que no meu caso tenha sido através dos caminhos das pedras que cheguei a redenção, desejo isso a todos os outros esse relativo sucesso que obtive.

Pois bem, um ano se passou e os benefícios vivenciados por esse assumir para os pais – e sem saber para os avós, leia aqui - foram poucos. Sendo meritocrático, a culpa foi minha. Na terapia, refletindo a respeito de mim mesmo durante o ano de 2009, cheguei à conclusão de que o meu ano de apatia teve como culpado eu mesmo. Faltou realizações por ter faltado de mim os objetivos e sem querer ser sofista, o Universo, tanto faz aqui com letra maiúscula ou minúscula, não se abala sozinho para conseguir o que desejamos.

Bem, 2010 começa diferente. No blog a diferença essencial é a primeira postagem ser intencionalmente no dia do mês em que foi publicada a segunda de 2009. Claro, essa postagem aqui tem um caráter muito mais reflexivo do que o emocional que teve a outra e quiçá tenha um caráter simbologista.

Sobre 2010 defini algumas coisas. A primeira é que não vou me considerar mais no armário e nem assumido, sequer vou me preocupar com um rótulo, que é feito para potes de geléia e não para eu que me vejo como complexo, multifacetado, singular e humano, com o que mais nobre ou podre isso tenha. Uma forma que encontrei para dar fim a essa designação de armariado foi o fim da minha participação na comunidade Estou no Armário e daí?, assim como o do meu perfil Well Bernard no Orkut.

Saí da comunidade, pois a um certo tempo não me identificava mais com ela que surgiu num momento da minha vida caracterizado por uma recente autoaceitação, porém cheia da solidão e cercado por um horizonte incógnito e amendrontador. Lá tive meus erros, os quais não seriam repetidos se fossem hoje sem dúvidas. Não os lamento porque isso nada adianta e adiantar alguma coisa não é meu desejo.

Também houve meus atritos, minhas divergências, me chamaram de coisas ruins. Mas quem disse que também não tenho coisas ruins para dizer a respeito dos que me ofendem? Mas foi bom, infinitamente bom, imensurávelmente bom. Pois a ENAED desencadeou coisas que certamente não se desencadeariam sozinhas em mim.

Sei que terei muitas saudades das conversas nos botecos, as cantadas dadas e recebidas, das trocas de experiências, a paciência para ouvir os relatos, para dar e ouvir conselhos inseguros, errantes, mas sinceros. Das provas de amizades não imaginadas, principalmente a dada pelos amigos de São Paulo. Embora tenha sido bom, a ENAED nunca será o que preciso para mim, pois essas demandas já foram superadas. Também não terá o encanto da naturalidade com que as coisas decorreram. A hora de sair e de deixar a comunidade para os outros e suas trajetórias e projetos de vida chegou e eu a fiz.

Assim penso que seja melhor sair, pois faz muito tempo que eu não me identificava mais com a ENAED e assim não tinha mais eu algum entusiasmo para lê-la, dela participar. Sentia-me nela alguém alheio e distante. De tal maneira, discretamente a deixei apagando, por não ver sentido em manter a existência, de Well Bernard. Saí da comunidade para dar ponto um final em um importante capítulo do texto que pode ser a minha vida.

Voltando ao que eu dizia, 2010 é um ano de planos, entre os outros planos está tentar realizar uma vaga em algum projeto de mestrado na universidade e em proporção menor, aumentar a convivência com pessoas do meu universo sexual na minha cidade e quem sabe atender e ser atendido pela demanda afetiva de alguém.

E aqui termino a primeira postagem do ano 2010, no dia do aniversário da minha “assumição”.